quarta-feira, 7 de maio de 2008

ALMANAQUE DE LITERATURA- (1) MACUNAÍMA (O Herói Sem Nenhum Caráter)


MACUNAÍMA

Meu primeiro contato com Mário de Andrade, confesso , não foi de uma forma agradável.
Uma leitura imposta pelo saudoso professor da época de meu ginásio, Sr. Bretas, que arrependo-me até hoje de não lhe ter dado uma atenção devida em suas aulas. Encarei a leitura como apenas uma obrigação escolar.
Eu era um adolescente, que revolucionário como é peculiar dessa fase, detestava tudo que era imposto, ainda mais páginas e páginas que se tornariam materiais para as malditas provas.

Mas qual não foi minha surpresa ao ler as primeiras páginas de MACUNAÍMA (O Herói Sem Nenhum Caráter), um ser nascido numa tribo amazônica...uma criança igual às outras. Um menino que crescia mentiroso, traidor, praticante de muitas safadezas e que falava palavrões, além de ser extremamente preguiçoso.
Houve uma identificação imediata...tudo que um pirralho adolescente era e adorava ser.

Lembro-me que vivia apenas para ler este livro, comunicando-me com a metáfora de já querer ser um adulto no dia-a-dia, em meus plenos quatorze anos de idade. Queria crescer como a personagem.
Começa a mergulhar nesse mundo do movimento Modernista e saber realmente por que veio...percebi que não era apenas um manifesto de escada do Teatro Municipal (SP), mas sim um encontro de idéias, onde comecei a descobrir os valores brasileiros de uma outra maneira.
Foi o início de uma aventura modernista na trinca dos "Andrades", começando com Mário, descobrindo Oswald e depois invejando as palavras de Carlos Drummond...

Com Mário de Andrade descobri um anti-herói que cresceu nos meus olhos, fazendo saber que uma mitologia indígena brasileira cheia de vida e mensagens existia bem perto...aqui!
Eu, que vivia mergulhado nas histórias dos heróis da Marvel Comics, resolvi baní-los por um tempo depois da leitura desse livro.
Começaram a me parecer um tanto pasteurizados, vindos de um lugar onde o bem e as pessoas não eram nada semelhantes ao mundo/país em que Macunaíma vivia e crescia...meu País.
Tornava-me um "ufanista" como os "Andrades".
Se Macunaíma, com todos seus defeitos, mostrava que ainda poderia acreditar, no fundo, num país bem melhor, por que eu não poderia?
Vai entender o que se passa na cabeça de um adolescente em desenvolvimento...

Numa leitura que acompanha qualquer jovem a ação, com poucas vírgulas e pontuação, com o espaço e tempo indefinidos, Macunaíma mostrou-me que nós também tínhamos nossos Heróis, sem precisar importá-los nos moldes de fora.
Não digo que cresci com todas essas "virtudes negativas" da personagem, mas sua história me fez ver que poderia desenvolver nesse seu amoralismo uma capacidade de ajustar-me a essa sociedade de parâmetros esquizofrênicos que descobri quando tornei-me adulto.
Que descoberta...fabulosa!
Com Macunaíma e Sr. Bretas aprendi que não devemos ler um livro pela cara do professor de português, ou como uma obrigação escolar.
E Sim como razão de vida para conhecer mais sobre uma sociedade, que às vezes se mostra mentirosa e hipócrita, como está narrado em suas páginas, e preparando-nos para enfrentar melhor tudo isso...
MACUNAÍMA. Um romance nacionalista que todo brasileiro deveria ler...e guardar a sete chaves nesse Grande Almanaque de uma Vida.
Gibinho
MÁRIO Raul De Morais ANDRADE
(São Paulo, 1893- 1945)

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